Caixinha

5 de agosto de 2009

Tirei a nota de 20 da carteira para pagar o almoço. A figura do mico foi ficando cada vez mais distante em outras mãos. Na volta recebo um punhado de moedas de diversos valores. Mais tarde tiro outra nota da carteira, dessa vez uma onça foge rapidamente do meu campo de visão e na volta, para a minha não surpresa, retornam mais um punhado de moedas. Segunda,terça, quarta, quinta, sexta, sabado e o domingo. O que fazer com tantas moedas? Guardo todas elas. Coloco dentro da minha caixinha e cada vez que a pego nas duas mãos para pesa-la e percebo o aumento da minha força para segura-la, fico mais alegre. Fico alegre porque é dinheiro e todo dia o peso aumenta. Um dia a caixinha vai encher e não vai caber mais nenhuma moeda, e todas as que estavam guardadas vão voltar a ser uma onça ou outro animal impresso, vou trocar por uma nota e gasta-la novamente. Gosto de fazer analogias. Hoje pensei, assim como ontem. O pensamento de ontem foi para a caixinha. O de hoje também. Essa minha caixinha já não estava vazia. Há muito tempo eu já colocava pensamentos nela. Bem verdade que passei um bom tempo com a caixinha guardada. Achei que já não cabia mais nada, mas não consegui fazer a troca. Pensamentos não é o tipo de coisa que se joga fora. Não escoa. Já gastava muito de mim para segura-la. Muito peso para apenas duas mãos suportar. Descobri que mesmo a caixinha sendo pequena e ter apenas uma saida, é possível otimizar o espaço organizando os pensamentos nos seus devidos lugares, de preferencia nos cantinhos e na penumbra. Foi o que eu fiz. Consegui mais espaço. Foi só conseguir mais espaço que consegui mais pensamentos para colocar naquela caixinha. Percebi também que o peso não mudou, muito pelo contrário, apenas continua aumentando. E quando realmente encher? Não estou falando de moedas. São pensamentos. Pensamentos ruins porque os bons não precisam ser guardados, sem valor algum, porem com um fundo de verdade. Pensamentos que me deixam triste, mas que guardo para sentir o peso deles. Guardo só para mim, na minha caixinha, uma coisa só minha que de vez em quando eu deixo escapar. Para me lembrar sempre que eles existem e que ocupam espaço. Assim como conto as moedas para saber por quanto vou trocar, mergulho nesses pensamentos para tirar alguma coisa deles, mesmo que no final não saia nada. As vezes eu consigo extrair alguma coisa que preenche minha cabeça. Sou o meu proprio trocador e troco apenas o que quero. Como diria alguns: "É aquilo mesmo, e não muda nada!". Não muda nada. Um dia eu vou deixar de guardar moedas e não vou avisar ao trocador. "Sóu passatempo".

O Lapso

2 Reações:

Ricardo Monteiro da rocha Franco Filho disse...

Bello,

Parabéns !
Cada Dia me surpreendo mais, com seu estilo e idéias. Esse texto ficou muito bom.

Rafa ... disse...

Amei! Achei que sua analogia foi bem diferente, mas que realmete tinha tudo a ver. Impressionante!